Como se tornar piloto de caça da Marinha do Brasil?

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Assim como em qualquer processo de seleção militar, para ocupar umas das pouquíssimas vagas de piloto de caça da Marinha, o piloto passa por inúmeros desafios, além de um longo processo de seleção e treinamentos até estar apto a ocupar o cockpit de um A-4KU Skyhawk.


O princípio

Para quem deseja ingressar neste universo tão concorrido, o primeiro passo é começar a estudar para o PSACN – Processo de Seleção e Admissão do Colégio Naval, que fica localizado em Angra dos Reis. Durante este período, os alunos escolhem seguir um dos seguintes Corpos: Armada, Fuzileiros Navais ou Intendência na Marinha do Brasil. O Colégio Naval é uma escola de Ensino Médio, ou seja, são três anos de curso em semi-internato, funcionando em regime disciplinar militar. O curso na Escola Naval dura 4 anos, e o aluno sai com o diploma de Ciências Náuticas, considerado ensino superior pelo MEC, apesar de ter pouca utilidade no meio civil.

No final do segundo ano de Escola Naval, você poderá escolher onde servir: no Corpo da Armada, para o Corpo de Fuzileiros Navais, ou para o Serviço de Intendência da Marinha. Após se tornar Aspirante na Escola Naval, o aluno é designado Guarda-Marinha, e permanece nessa patente até ser promovido a 2º Tenente, onde irá servir como Oficial Naval em uma das Organizações Militares da Marinha espalhados pelo Brasil. Para se tornar um piloto da Marinha, você deve possuir o diploma do Curso de Aperfeiçoamento em Aviação para Oficiais (CAAVO).

Inicialmente todos cursam a parte de tecnologia aeronáutica do CAAVO (Curso de Aperfeiçoamento de Aviação para Oficiais) no CIAAN (Centro de Instrução e Adestramento Aeronaval Almirante José Maria do Amaral Oliveira), escola localizada na Base Aeronaval de São Pedro da Aldeia – RJ. Então, se seu objetivo é ser piloto, deverá ficar em um desses dois quadros.


Já no CIAAN, a primeira parte do curso é ministrada pelos professores do CAAVO. Depois do aluno ser aceito no processo de seleção, é feita uma bateria de exames médicos e psicotécnicos. Nessa etapa, todo e qualquer problema de saúde pode pode te desclassificar.

Geralmente, intendentes mais antigos terão uma maior probabilidade de ingresso. Por isso, você deverá ser um bom aluno na sua turma, de preferência o melhor. É um dos cursos de aperfeiçoamento mais concorridos da Marinha. No CIAAN, você começará sua formação teórica em Aviação. O curso teórico abrange desde o conteúdo semelhante ao ministrado na aviação civil, além de conteúdo inerente à Aviação Militar/Aeronaval.

Nessa fase ocorre a seleção para asas-rotativas, feita através de exames médicos, psicotécnicos e do Teste de Aptidão para Pilotagem Militar (TAPMIL). Dando início à instrução de voo nos IH-6B Jet Ranger III, pertencentes ao 1º Esquadrão de Helicópteros de Instrução (HI-1), o agora piloto de asas rotativas voa cerca de 120 horas durante aproximadamente um ano. Após a conclusão do EBAR (Estágio Básico de Asa Rotativa), os pilotos são direcionados para os Esquadrões de helicópteros da Marinha.


Finalmente AFA

Os selecionados seguem para a Academia da Força Aérea (AFA), onde ingressam no 2º Esquadrão de Instrução Aérea (EIA). Lá, realizam o mesmo curso básico em aeronaves de motor a pistão no T-25 Universal, e mais tarde no Embraer T-27 Tucano. Concluído o curso do 2º EIA, é feita uma seleção onde os quatro melhores serão destinados ao Esquadrão VF-1 e dois para o Esquadrão VEC-1, que vão voar o KC-2 Turbo Trader, nas funções de COD/AAR no NAe São Paulo. Aqueles que não foram indicados para avião serão aproveitados e irão realizar o EBAR.

Após o curso prático intermediário, haverá uma nova seleção onde apenas dois Oficiais do CAAVO são enviados aos EUA. Lá, realizarão o curso de Piloto de Caça Aeronaval em T-45 Goshawk, aprendendo a operar em um Porta-Aviões. Também treinarão sobrevivência no mar com simulação de queda de aeronave, simulação de paraquedas com óculos 3D e simulação de pouso com paraquedas na água (piscina), similares aos que já existem no Brasil.


No fim, o recomeço

Ao fim do treinamento e já no Brasil, antes de integrarem o VF-1, estes dois oficiais voltam para São Pedro da Aldeia, onde realizam o “Ground School” para o AF-1, e então ingressam no 1º Esquadrão de Aviões de Interceptação e Ataque (VF-1), realizando o curso da Aeronave A-4 Skyhawk (AF-1) da Marinha.

Os candidatos não selecionados na AFA voltam para São Pedro da Aldeia e ingressam no 1º Esquadrão de Helicópteros de Instrução (HI-1). Lá realizam o curso teórico e prático do Jet Ranger III, em que voam cerca de 90 horas de voo. Após formados, são designados para 1 dos 7 Esquadrões de Helicópteros da Marinha, limitando-se ao números de vagas existentes.


Como vimos, ser piloto da Marinha talvez seja uma das carreiras mais difíceis de seguir. Estudar durante 4 exaustivos anos, correr o risco de não conseguir ingressar no CAAVO e ter de passar o resto da carreira como um Oficial “normal” da Armada ou dos Fuzileiros, é algo quase certo. Fora o fato de que a Aeronáutica possui muito mais esquadrões de aeronaves, e voa exponencialmente mais do que a Marinha.

Pense bem antes de tomar uma decisão como essa.

Tayly Vieira

Tayly Vieira

Entusiasta de Aviação Militar e acadêmica de Engenharia Ambiental pela UTFPR. Costuma escrever seus artigos sob a sombra da Árvore de Gondor.
Tayly Vieira
  • Márcio Lira

    É mais difícil ser aviador naval do que ser aviador da FAB. E mais difícil ainda ser caçador na Marinha do Brasil.
    Só duas coisas: T-27 é no 1º EIA da AFA; e o São Paulo foi “aposentado” rsrs