O que restou da Força Aérea Síria?

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Após o fim da Guerra de Independência de Israel, a Síria montou sua força aérea, especialmente com a inclusão de aviões de caça. Como não havia a possibilidade de compra de aeronaves dos Estados Unidos, cada vez mais pró-israelenses, os sírios tiveram que recorrer a outros fornecedores, uma fonte totalmente improvável: a Itália.

A economia italiana, devastada pelos efeitos da Segunda Guerra, precisava se restabelecer no cenário econômico, voltando-se então à exportação de armas. A Itália forneceu seus próprios sistemas de treinamento G46, além do G55, indiscutivelmente o mais eficiente caça italiano da Segunda Guerra Mundial. Apesar da Itália fornecer uma experiência valiosa em aeronaves de alto desempenho para uma força aérea tão jovem, era algo temporário, sendo obviamente os jatos o caminho do futuro.

Da criação de uma nova força aérea, inicialmente com aeronaves de observação e treinamento fornecidas gratuitamente pelos EUA, causando uma controvérsia na imprensa americana da época, a Síria conseguiu um número excessivo de aeronaves, contudo com uma escassa tecnologia.

Entretanto, em 2015 o número total de aeronaves parece ter diminuído, embora a Força Aérea Síria ainda esteja em operação. Em geral, a Síria perdeu metade do seu inventário de 550 aeronaves de combate entre 2011 e 2014. No entanto, a precisão de dados é difícil de avaliar, devido à guerra civil em curso, onde vários veículos são adquiridos e perdidos durante uma batalha.


Estimativas

Durante a Guerra dos Seis Dias, em 1967, a Síria mudou completamente. Possuía um governo instável, fazendo com que a Síria fizesse parte da confederação de alguns países. Nessa altura do campeonato, sua força aérea tinha-se expandido para cerca de 120 aviões de combate, incluindo MiG-15, MiG-17 e na época o mais recente MiG-21. Em geral, a Força Aérea da Síria era a segunda mais forte das forças aéreas árabes, embora carecesse do braço de bombardeiro Il-28 e do Tu-16 da Força Aérea Egípcia.

Depois de 1967, as forças armadas da Síria reconstruíram meticulosamente sua Força Aérea, com o apoio da ex-União Soviética. O MiG-17 foi substituído por vários MiG-21 e suas variantes, retirado para o papel de caça-bombardeiro enquanto outras aeronaves foram sendo adicionadas ao inventário.

Até a primeira fase da guerra civil síria, o poderio aéreo continuou bastante limitado em tecnologia, mas o ostentava em números que aumentaram significativamente desde 2012, quando a eficácia da força aérea síria atingiu seu ápice. Porém, durante a guerra civil, diversas bases, incluindo nomes, foram perdidas para facções rebeldes, muitas vezes incluindo dezenas de destroços ou mesmo aviões completos, embora nenhum rebelde tenha tentado (nem mesmo conseguiriam) restaurá-las para uso operacional.

Nos anos 80, a Síria recebeu vários aviões modernos fabricados pelos soviéticos, principalmente caças MiG-29 e os caças-bombardeiros Su-24. No entanto, devido à natureza secreta dos militares sírios, é difícil estabelecer números com exatidão. Antes do conflito, o inventário sírio era dificilmente preciso, considerando as perdas, especialmente com os tipos mais antigos devido ao abandono de aeronaves inutilizáveis. Os sírios muitas vezes deixaram essas aeronaves em campo aberto como chamarizes, ou mesmo abandonadas devido à falta de fundos para mantê-las operando.


Mas o que resta da Força Aérea Síria?

Os números que compõem esta tabela não refletem com precisão, devido ao atrito de combate mantido durante uma guerra civil em curso. A recente guerra civil síria causou e causa inúmeras perdas à força aérea do país.

O ataque americano a uma base aérea síria – no dia 07 de abril deste ano, em resposta pelo uso de armas químicas sobre uma população pelo regime sírio – destruiu cerca de 20% das aeronaves militares do presidente Bashar al-Assad. De localização favorável, o aeródromo de Shayrat, que foi destruído no bombardeio, era usado para estocar armas químicas até meados de 2013, quando um acordo entre Rússia e EUA impôs ao governo que se desfizesse do arsenal. A base ainda possui a pista extensa, capaz de ser utilizada por todos os tipos de aeronaves, desde caças a aviões de transporte.

O Pentágono alega que o ataque, que agora parece ser punitivo, causou danos significativos à base aérea síria, resultando em danos em postos de combustíveis, radares e munições, fazendo com que o governo sírio perdesse a capacidade de reabastecer ou rearmar aeronaves na própria base, além da destruição da defesa aérea operacional local, usada ativamente pela Força Aérea de Assad desde o início da guerra civil.

Este número, se fizermos as contas, é presumivelmente com referência às aeronaves de asas fixas, que compõem a espinha dorsal da Força Aérea Síria. Estimativas ocidentais anteriores colocaram o estoque total de aeronaves de asa fixas sírias em, aproximadamente, 200 a 275 aeronaves. Evidentemente, o desgaste devido a perdas em combate, a falta de manutenção adequadas e peças sobressalentes foi significativamente pior que a estimativa.

Apesar das afirmações do Pentágono, tem sido relatado que a Força Aérea da Síria está voando ativamente fora da base, mesmo sendo inútil para o Departamento de Defesa. A pista da base aérea nunca foi alvejada, ou seja, permanece intacta. A base aérea de Shayat mantinha dois esquadrões de bombardeiros Su-22M3 / M4 e um esquadrão de Mig-23ML / MLD, e um bom número desses jatos sobreviveram.

Estes esquadrões foram distribuídos em três diferentes partes base, e os mísseis atingiram dois dos três setores. Como consequência, eles receberam 5 Su-22M3s, 1 Su-22M4 e 3 Mig-23ML para um total de 9 aeronaves destruídas. O Pentágono afirmou que 20% do poder aéreo sírio foi destruído. Se a avaliação do Pentágono estiver de acordo, podemos supor que o regime de Assad tenha um déficit de 45 aeronaves de combate operacionais deixadas em seu inventário.

Isso significa que os anos de guerra tomaram um tributo severo da força aérea síria, que tinha 461 aeronaves de combate de asa fixa e 76 aeronaves de treinamento em seu catálogo de 2011. Mas isso é uma avaliação de danos do Pentágono e associações de levantamento de Dados. Pode ser inflada, mas é difícil de avaliar sem ver seus registros.


SAAF atualmente

Com a intervenção russa na Guerra Civil Síria, a SAAF tomou um papel de coadjuvante. Embora tenha sido um fator constante na guerra civil, não foi capaz de travar os reveses que o Exército Árabe Sírio sofreu em 2013, e novamente com a emergência do Estado Islâmico em 2014.

Com ataques aéreos russos cada vez mais freqüentes, é provável que a Força Aérea da Síria aproveite o tempo para restaurar suas capacidades de combate – e com uma ajudinha russa, mesmo não havendo suposição se aeronaves sírias e russas integram os mesmos confrontos, ou se ambas lutam em missões aéreas separadas.

O futuro da Força Aérea da Síria, incluindo sua composição, dependerá em grande parte do resultado do conflito mais amplo. No entanto, é improvável que a Força Aérea da Síria venha a receber reforços relevantes, enquanto o conflito estiver em curso. A integração de novos tipos de aeronaves em uma força aérea que perdeu uma parte considerável de sua infra-estrutura, mesmo lutando contra um civil, é quase impossível.


Imagens:

Tayly Vieira

Tayly Vieira

Entusiasta de Aviação Militar e estudante de Engenharia Ambiental pela UTFPR. Costuma escrever seus artigos sob a sombra da Árvore de Gondor.
Tayly Vieira
  • Márcio Lira

    Bravo!!