Aviação de garimpo – A aviação pau e pedra

Nós, brasileiros, temos o privilégio de termos um país com proporções continentais, com extensão territorial de estados que, muitas vezes, superam a de outros países. Mas junto com essa dádiva, temos um grande desafio: o de chegar a todos os lugares do nosso território. Esse desafio se faz histórico, é existente desde a descoberta do nosso continente, quando dezenas de expedições eram realizadas no sentido de tentar alcançar os rincões do antigo Brasil. Ainda hoje existem regiões que, embora tenhamos dezenas de projetos de estradas e ferrovias, ainda são praticamente inacessíveis ou intocadas. Uma dessas regiões foi e tem sido a região amazônica, extremamente extensa e ao mesmo tempo rica, seja por outras culturas e civilizações lá dentro ou por minério e fauna.

Um fato curioso é que o termo “aviação de garimpo”, há muito tempo, deixou de caracterizar uma aviação relacionada com o puro e simples garimpo. Hoje refere-se ao estilo, ao risco e às condições desse tipo de aviação. Muito embora o garimpo tenha acabado, o nome “aviação de garimpo” ainda existe, e é dado deliberadamente a todo tipo de voo feito naquela região, onde o avião se encontre nas mesmas condições das do real garimpo: com pistas extremamente curtas e entranhadas no meio da mata, onde o envelope da aeronave era a última coisa levada em consideração, onde o lucro era o principal…

Entenda: quando durante a semana for dito o termo “aviação de garimpo”, não considere mais somente aquela aviação única e exclusivamente relacionada ao garimpo, mas sim um termo generalizado onde se pressupõem as condições clássicas desse tipo de aviação, que acontece livremente agora, neste exato momento em que vos escrevo. A aviação de garimpo tem sido, por anos, o único meio que muitas vezes por iniciativa religiosa ou privada vem alcançando regiões intocadas e isoladas no meio da mata, levando ajuda social e básica a famílias e comunidades ribeirinhas. A aviação pau e pedra vem, por outro lado, sendo também o principal meio de acesso a áreas de pesquisas e investimentos do IBAMA, no sentido de catalogar ou descobrir mais sobre nosso país, dentre diversas outras funções que eventualmente os pilotos precisam exercer. O aviões são extremamente robustos, incrivelmente precisos sem ao menos ter um receptor de VOR a bordo, tudo pensado (ou não) para ser eficiente naquelas condições da maneira menos custosa.

Durante a semana vou abordar variavelmente cada aspecto da aviação de garimpo atual, sempre procurando deixar claro que hoje o termo não se aplica mais àquela velha aviação, mas se tornou na verdade um jargão, generalizando todo e qualquer tipo de voo feito nessas condições. Vim a Manaus, e pesquisei com o objetivo de procurar entender e descobrir mais sobre a aviação pau e pedra, a aviação sem margem de erro, aquela em que o piloto e a máquina precisam ser um só, e assim se manterem até o pouso. Aviação onde o piloto faz realmente milagre com pau e pedra.

Eduardo Mateus Nobrega
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Eduardo Mateus Nobrega

Piloto Comercial de Avião, e formado em Ciências Aeronáuticas pela Universidade Norte do Paraná.
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  • Enderson Rafael

    Em tempo, o “bush flying” existe em outros países, e com índices de acidentes bem mais baixos que nossa “aviação de garimpo”. Economia e aviação não combinam jamais.

    • De fato enderson, aqui a coisa tentou ser “enxuta” em relação aos custos até mesmo pelo período que o pais vivia.