Aviação de garimpo: um novo garimpo

Durante anos foi assim: o garimpo era o motivo para centenas de pilotos arriscarem diariamente suas vidas, muitas vezes fazendo a própria lei onde a mesma nem imaginava chegar. No entanto, como tudo, o garimpo um dia teve um fim, e passou a ser proibido explorar ouro em determinadas regiões, seja por demarcação de territórios indígenas, por degradação ambiental ou mesmo por estagnação das minas.

Por muito tempo aquela região ficou abandonada, bem como grandes estruturas, vilas, cidades, pistas e pessoas que ali foram parar. Mas o que aconteceu em seguida foi a coisa mais importante para a região – tardio talvez, mas sem dúvida primordial, para que o desenvolvimento da região isolada na Amazônia pudesse ter seu valor novamente considerado, e de certa forma explorado.

De repente, as pessoas começaram a perceber a riqueza cultural, ambiental e a importância da Amazônia para o Brasil. Centenas de expedições eram realizadas mensalmente àquela região. Entre 1998 e 2001, mais de 200 espécies de animais, insetos e plantas foram descobertas e catalogadas. Mais e mais pessoas passaram a voltar seus olhos para o pulmão do mundo, a Amazônia. Uma coisa, no entanto, ainda não havia mudado com o tempo: a dificuldade de acesso as essas regiões, igualmente isoladas como as do garimpo.

De barco ou de voadeira (pequenos barcos rápidos e leves), levava-se um ou até dois dias para se chegar em determinados lugares, fora o período de caminhada e exposição a doenças. A única forma de novamente se ter acesso a esses lugares, então, seria de avião. Inclusive, seriam usadas as mesmas pistas utilizadas pelo garimpo, nas mesmas condições e com o agravante de que agora a segurança precisava ser levada em conta, o que sem dúvida limitava a operação dos mesmos.

E assim teve início a nova aviação pau e pedra, onde não era mais o garimpo que movia tudo, e se era, não era atrás de ouro que as pessoas estavam. O risco era exatamente o mesmo: muitas pessoas morreram no inicio dessa nova aviação, mas ela novamente funcionava, e era fantástico como isso trouxe bem à região amazônica. Os pilotos levavam, como antes, suprimentos às comunidades ribeirinhas, enquanto ganhavam com o transporte de pesquisadores e curiosos.

Os aviões também eram maiores. Dessa vez, Senecas, Bonanzas, Barons e helicópteros passaram a compor a frota dessa grande esquadrilha. Esses voos foram os precursores de uma nova porém tradicional aviação, que levou desenvolvimento, investimentos, valor e reconhecimento pela região amazônica. Afinal, se não conhecíamos o que é nosso, como poderíamos protegê-lo?

Foi dessa forma que a nova aviação de garimpo conseguiu manter tudo que havia sido investido com o tempo, naqueles lugares isolados. Ela conseguiu levar nova esperança para pessoas que, depois do término do garimpo, simplesmente viram o tempo parar. Os aviões foram, para alguns, anjos do céu que ligaram a Amazônia ao mundo novamente. E os pilotos, estranhos e incríveis homens que tinham a capacidade de operá-los. 

Eduardo Mateus Nobrega
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Eduardo Mateus Nobrega

Piloto Comercial de Avião, e formado em Ciências Aeronáuticas pela Universidade Norte do Paraná.
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  • Alan Dantas

    Encarar os perigos da Amazônia não é pra todo mundo! Parabéns pela série!