Como eu era antes de você

Antes de tudo, preciso avisar que este texto não tem nada a ver com o livro que virou filme, com título homônimo a este humilde texto. Não nego que a citada obra me fez refletir sobre como eu era, ou como era minha vida antes de me envolver com a aviação. Tenho a impressão de que aqueles que como eu foram contaminados pelo famoso aerococus irão partilhar de algumas visões que só quem ama a aviação entenderá – ou por que não, quem ama alguém que ama a aviação. Esses são forçados a embarcar junto.

Do ponto de vista financeiro, que a despeito das forças da natureza é o que realmente faz o avião voar, a mudança é enorme. Lembro-me claramente de como era comprar algo de que eu não precisava, e não sentir nenhum tipo de remorso. Ou ainda, de sair à noite e não me importar muito pra onde ia meu rico dinheirinho, era como se fosse natural gastá-lo assim, como se ele fosse feito pra isso mesmo. Depois da aviação ter se impregnado na minha vida, não consigo mais comprar algo sem culpa. A impressão é sempre de que esse dinheiro deveria estar sendo poupado para horas de voo. É quase como fazer algo errado, quase uma traição! Talvez você que passa/passou por isso entenda o sentimento.

Antes as coisas custavam o valor da etiqueta, era fácil, era matemático. Hoje, ou melhor, “depois de você”, tudo tem que ser convertido numa espécie de câmbio meio subjetivo e emocional, que termina na maior parte das vezes como uma fração de hora de voo. Essa se torna a moeda corrente: essa roupa vai me custar 0,2 horas de voo… Não vou nessa festa por que vou acabar queimando uma hora de voo!

Sob essa ótica, chamo a atenção pra que não sejamos extremistas. Um bom exemplo é aquele livro interessante que você viu em uma loja (de aviação, pra variar), gostaria de tê-lo, e imediatamente calculou que ele te custaria alguns bons ‘minutos de voo’. Calma aí! Você paga em média R$ 400 numa hora de voo, e acha que R$ 100 em um livro que te trará conhecimentos valiosos ou mesmo cultura preciosa é caro? Reveja esse conceito ou a aplicabilidade do mesmo. Eu busco não me privar de conhecimento, até por que sou fã daquela frase que fala em “Ler um Avião e Voar um Livro”. Conhece?

Acredito que, depois de tudo terminado, me refiro a trabalhar na aviação. Isso pode deixar de ser uma realidade pra mim. Mas por enquanto, pra quem persegue um objetivo tão grande e difícil, simplesmente faz parte do jogo. Até porque, depois de formado, ainda terão as renovações de habilitações, CMA, ICAO…

Luciano Faiolo
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Luciano Faiolo

Piloto Comercial de Avião, Multimotor, IFR e INVA - Contador e Auditor Interno, considera a o EMB-120 a aeronave mais bonita do mundo!
"A aviação vai melhorar! Dá motor e acredita!"
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