Onde estão as mulheres? | Minha Proa: 054

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As mulheres na aviação são como OVNIS: muitos falam que já viram, mas ainda é difícil presenciar.

Durante uma entrevista que dei a um podcast, acabaram me indagando sobre esse assunto que, uma hora ou outra, já passou pela mente dos demais pilotos: Por que há tão poucas mulheres na aviação?

Quando começamos a profissionalizar o site do Canal Piloto, resolvemos fazer uma pesquisa de público para conhecer o perfil dos usuários que acessavam nosso site. Dentre as várias perguntas sobre formação, localização e interesses, estava o sexo do usuário. Surpreendentemente (ou não), apenas 2% de nosso público era constituído por mulheres naquela ocasião.

Sim, é um contraste surpreendente, mas não chega a ser um surpresa para qualquer um que já esteja na aviação há algum tempo. No meu caso em particular, fiz meu curso teórico de PP em uma sala com cerca de 50 alunos, dos quais apenas 2 eram mulheres. Das dezenas de instrutores com os quais voei nesse primeiro curso prático, todos eram homens. No curso teórico de PC, havia novamente apenas 2 mulheres na sala inteira. E reunindo todos os INVAs com os quais voei nos meses seguintes em dois aeroportos diferentes, só em 2 ocasiões voei com mulheres. E em solo, só fiquei sabendo da existência de outras 3, perante dezenas e dezenas de INVAs homens.

Parte desse contraste em pleno Século XXI é devida à desinformação. Do mesmo modo que ainda hoje muitas pessoas acreditam que pilotos não podem utilizar óculos, ainda existem mulheres que acreditam que essa é uma profissão exclusivamente masculina. Não é raro lermos, através de nossos e-mails, mensagens de jovens do sexo feminino perguntando justamente isso: se mulheres podem ingressar na aviação como pilotos, contrastando com o estigma de que as mulheres poderiam voar apenas como comissárias.

Parte dessa cultura acaba vindo da aviação militar. Em muitos países, ainda hoje, as mulheres não podem ingressar em certos cargos, como o de piloto de caça. Paralelamente a isso, inclusive no Brasil, pilotos militares não podem utilizar óculos, por exemplo. Do mesmo modo que esse incorreto estigma da limitação de visão migrou para a aviação civil, a limitação das mulheres nesse meio também sofreu essa banalização.

É claro que não podemos suprimir a questão do machismo, que mesmo em número decrescente, ainda é presente. Eu não soube de casos recentes nos quais uma piloto teve dificuldades de ingressar em um cargo por ser mulher, mas às vezes justamente ter conseguido esse emprego é o motivo dos comentários. “O patrão só escolheu ela para ter um rostinho bonito por perto” – É um exemplo de comentário light desses casos. Mas em um mundo pequeno como o da aviação, quem faz comentários como esse não segue por muito tempo impune.

Se você é uma jovem em busca desse objetivo, siga em frente sabendo que não há nenhuma limitação técnica nesse sentido. E assim como as pioneiras do passado, torne-se mais uma prova de que as mulheres também tem seu espaço nos céus.

Alexandre Sales
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