Aviação de garimpo, a herança

‘’Tem que ter coragem e ser um pouco irresponsável’’. Assim disse um piloto que voou em Boa Vista-RR durante a década de 80, e de fato assim foi não só nessa cidade, como em Itaituba também, onde a vida era algo tão vulnerável que uma perda era só mais uma estatística. Voos “espanta macacos”, fora do envelope e sem manutenção alguma, fizeram parte da rotina desses aviadores. Querendo ou não, isso marcou a aviação de garimpo enquanto essa marcava a região.

Muito embora se veja como um período bagunçado ou algo do tipo, o trabalho era honesto – e muitas vezes, mais honesto, mais digno e mais eficiente do que hoje. O garimpo foi a “guerra” para a aviação do Brasil, pois trouxe os mesmos efeitos positivos da mesma. Todo país que passa por uma guerra longa quebra economicamente e perde sua hegemonia, sofrendo muitas baixas. Mas sem dúvida, após a guerra ele consegue se estabelecer de forma muito mais concreta e persuasiva, com experiência.

Assim foi e tem sido a aviação pós garimpo nessa região. Poucas melhorias de fato ocorreram. No entanto, a aviação ali se consolidou, se firmou, e o que ali foi aprendido – seja em manutenção, operação ou risco envolvendo a aviação – até hoje perdura no Brasil. Precisamos ser gratos a essa “guerra” travada anos atrás por esses pilotos brasileiros.

Hoje a aviação pau e pedra ainda existe. Improviso não falta na Amazônia: é difícil manter uma aeronave em perfeito estado em pistas muito precárias, quem voa entende isso. Então, sem dúvida são contemporâneas as mesma condições do passado, embora hoje a segurança seja vista de forma totalmente diferente. O conhecimento que se adquiriu nesses voos não existe em livro algum, e nenhum aeroclube ou escola de aviação poderá um dia fornecer.

Mas estávamos numa época onde o lucro pagava qualquer risco, e assim tudo valia a pena. Um piloto chegava a faturar 1500 cruzeiros por Kg a bordo, então qual o sentido de manter o envelope? Eram tantos voos que há registros de aviões que pousaram em cima de outros. Dependendo da sua visão, isso pode ser algo catastrófico ou fantástico. Eu vejo como a segunda opção, uma vez que até hoje se carregam os “lucros” teóricos desses voos.

A aviação de garimpo não parou e acontece exatamente agora. Os tempos mudaram, as aeronaves estão maiores, e o garimpo já não é mais de ouro. Mas a coragem, as habilidades e a pequena “falta de responsabilidade” continuam as mesmas.

Como citei no começo da semana, “Nós, brasileiros, temos o privilégio de termos um país com proporções continentais, com extensão territorial de estados que muitas vezes superam a de outros países, mas junto com essa dádiva temos um grande desafio”. Esse desafio é histórico, e posso dizer pelo que vi por aqui que tem sido superado. Pessoas que morriam por enfermidades simples em barcos, tentando chegar à cidade, não precisam mais passar por isso; comunidades que nunca tiveram auxilio de saúde ou orientação sobre cuidados básicos, hoje os recebem; crianças que nunca saberiam o que seria ver um dentista cuidando delas, hoje podem sorrir e saber que a ajuda vem do céu, e não demora, muito embora a distância e o caminho difícil as separem da sociedade.

Tudo isso foi fruto de um tempo de aprendizado, de uma guerra contra o inferno verde, travada por aqueles pilotos da aviação de garimpo, que deixaram o seu valioso legado para a aviação atual.

Eduardo Mateus Nobrega
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Eduardo Mateus Nobrega

Piloto Comercial de Avião, e formado em Ciências Aeronáuticas pela Universidade Norte do Paraná.
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