Como ter uma relação saudável com o Controlador

A boa convivência entre pilotos de aeronaves e controladores de tráfego aéreo é um dos pilares de um voo seguro, e algo sobre o que sempre devemos prezar.

Até hoje é comum alguns pilotos de aviação geral terem receio de voar em TMAs congestionadas, como SP e RJ. Apesar de eu também ter ouvido histórias que me deixaram com receio no princípio da minha formação, cito que felizmente nunca passei por grandes atritos voando nessa área.

Ainda sim temos de levar em conta que desentendimentos e stress são fatores que podem ocorrer durante essa comunicação. Assim sendo, vejamos algumas dicas para o bem de todos e felicidade geral da aviação.


Utilize o princípio da concisão

Algo comum em áreas com grande tráfego de aeronaves é a existência de uma frequência congestionada, no sentido de que mesmo você precisando reportar algo no exato momento, ainda é necessário aguardar outros pilotos finalizarem as coordenações prévias.

Se já é um contratempo tentar achar um momento para falar, calcule a situação do controlador, em ter de organizar todo esse volume. Para ajudar todos nessa situação procure ser conciso, ou seja, transmita o máximo de informação com o mínimo de palavras.

“EJS, acuse virando base” – É o pedido do controlador.

“Torre Marte, o PT-EJS está na perna do vento da pista 30, ingressando na perna base nesse momento, para pouso” – É um possível reporte ao ingressar na perna base.

Sim, a frase possui informações corretas. Porém, em uma situação de tráfego congestionado é aconselhável citar apenas o essencial. O controlador sabe que seu destinatário é a Torre, há alguns segundos você já estava na perna do vento da pista 30 e na sua chamada inicial você já reportou sua matrícula completa e intenção de pouso, portanto, se limite ao que importa naquele momento.

“EJS virando base” – Seria o bastante.


Seja realista e honesto

“EJS no ponto de espera, pronto?” / “EJS, confirme o estimado para cruzar o aeródromo” / “EJS, tem condições de alongar a perna do vento?”

Frases como essas não são requerimentos, mas sim pedidos, com os quais o controlador contará para organizar o tráfego como um todo. Portanto, procure sempre ser realista e honesto com o compromisso que firma ao responder esses pedidos, inclusive, se precisar negar.

Se ainda estiver fazendo seu check de cabeceira, não se apresse. Se não puder informar um estimado preciso, não chute. Se não estiver seguro em alongar a perna do vento, negue tal pedido.

É melhor contrariar um pedido inicial do controlador do que ter de lidar com a frustração dele quando ambos perceberem que você errou ao assumir certo compromisso.


Coordene quando necessário

Apesar de todo planejamento que realizamos, imprevistos podem ocorrer, inclusive aqueles que requerem desvios de rota. Bando de pássaros, separação de tráfego, formações de nuvens e etc.

Com exceção dos emergenciais, sempre coordene com o controlador sobre qualquer desvio que acredite ser necessário.

Caso perceba que seu nível e proa vá lhe levar para dentro de uma formação, não assuma que simplesmente baixar seu nível de voo temporariamente é a melhor opção. Levando em conta o tráfego da região (além da tabela de níveis), pode ser que o mais seguro seja um desvio lateral do que vertical. É para tal julgamento que o controlador está ali, portanto, consulte-o previamente antes de sair de seus padrões.

Evite escutar do APP ou ACC o clássico “EJS, o que o senhor está fazendo?”


Não é necessário justificar seus erros

“EJS, o senhor está autorizado SBJD-SBJD com TGL em SDPW, decolando da pista (…)”

“Ciente, EJS autorizado para SDPW, decolando da pista (…)”

“EJS, negativo, o senhor não está autorizado para SDPW, o senhor está autorizado para TGL em SDPW (…)”

Nesse caso, o piloto até pode ter entendido que a autorização foi apenas relativa a um TGL, mas como utilizou o termo “autorizado para”, isso deu a entender que seria um voo direto com pouso completo nesse destino. Mesmo no caso disso ter sido apenas um erro honesto, não há necessidade de se explicar na fonia apenas para se defender diante da correção.

“Ciente, autorizado TGL em SDPW, EJS” – É o bastante.


Evite alongar debates

Do mesmo modo que os pilotos erram, os controladores também o fazem.

Trocar aeronaves de matrículas parecidas, e acabar autorizando para decolagem alguém que está na perna do vento, é um dos erros comuns.

Contudo, situações mais acaloradas podem ocorrer, como quando duas aeronaves seguindo instruções entram em Resolution no espaço aéreo controlado, requerendo desvio via TCAS.

Após passar por esse stress os pilotos reportam tal ocorrido ao controlador, e por vezes ficam frustrados com um mero “Ciente” por parte dele (contudo, é o que manda o regulamento).

Apesar de insultos profissionais volta e meia ocorrerem nesse momento, é necessário lembrar que dali não sairá nenhuma solução ou punição. Qualquer detalhe ou acusação de responsabilidade devem ser inseridos nos respectivos relatórios de prevenção, após o voo.


Somos humanos, mas…

A relação entre controlado e o controlador precisa seguir com estabilidade. Sendo conciso, honesto, realista, se comunicando e respeitando os regulamentos de tráfego aéreo, seu voo tem tudo para seguir seguro.

Somos humanos, mas precisamos nos basear menos nas emoções e instintos, e mais no que fomos treinados para realizar.

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Alexandre Sales

Piloto Privado de Avião, desviando de urubus nos céus da Terminal São Paulo desde o primeiro voo
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