O “Jeitinho Brasileiro” da Decolagem Americana

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É bem provável que você já tenha visto essa cena: uma aeronave alinha-se à cabeceira em uso, e tão cedo quanto possível, transforma sua corrida de decolagem em um voo rente ao chão. Ao aproximar-se da cabeceira oposta, a aeronave subitamente ergue o nariz, em uma razão acentuada de subida, nivelando-se instantes depois.


A manobra, conhecida no Brasil como “decolagem americana”, com certeza impressiona. No entanto, o mais impressionante é saber que, em território norte-americano, raros são os pilotos que a executam. Quando muito, a manobra é vista em voos de demonstração, executada por aeronaves acrobáticas ou mesmo militares.

Muito provavelmente, o termo “decolagem americana” surgiu no Brasil como a junção de duas manobras que fazem parte de um mesmo capítulo na formação de pilotos privados nos Estados Unidos: a Short-Field Takeoff (ou decolagem curta), e a Soft-Field Takeoff, algo como “Decolagem de Pistas Irregulares”.


Do que se tratam, então, essas manobras?

A Short-Field Takeoff é praticada normalmente em nossas escolas de aviação, sob o nome de “decolagem curta”. Nela, o piloto estabelece a velocidade de melhor ângulo de subida (Vx), com o objetivo de livrar obstáculos ao final da pista, utilizando a menor distância horizontal possível.

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Já a Soft-Field Takeoff existe por razões pouco encontradas no Brasil. A técnica possibilita a decolagem em pistas de terra macia, grama, ou até mesmo cobertas de neve. Como o atrito das rodas nessas condições dificultaria o aumento da velocidade, tiram-se os trens de pouso do chão o mais rápido possível, voando muito próximo à velocidade mínima de controle (Vmc). Sem o atrito excessivo dos pneus, e com o auxílio do efeito solo, a aeronave ganha velocidade em um voo raso sobre a pista, para ao final ganhar altitude em uma decolagem normal ou decolagem curta, conforme permitirem as condições no momento.

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De onde surgiu, então, a nossa decolagem americana?

É bem provável que a nossa “decolagem americana” tenha surgido numa tentativa de combinar-se a Soft-Field Takeoff com a Decolagem Curta. O voo rente ao chão remete à segunda manobra, mesmo sendo muito praticado sobre pistas de pavimentação regular. Já o ângulo acentuado de subida parece encontrar origem na decolagem curta, onde o parâmetro a ser observado pelo piloto é a velocidade aerodinâmica durante a manobra, que por sua vez lhe garantirá o melhor ângulo.


É perigoso, então, praticar a decolagem americana?

Os riscos da decolagem americana estão associados a diversos motivos. Muitas vezes, os pilotos buscam um ângulo muito acentuado de subida, valendo-se da velocidade acumulada durante o voo rente ao chão. É preciso levar em conta, no entanto, que há uma perda de sustentação quando a aeronave se distancia da pista, em virtude da perda do efeito solo. Some-se a isso o fato de pouquíssimas aeronaves possuírem performance para subidas em ângulos mais agressivos, e você terá o desnecessário cenário de risco que já vitimou muitos pilotos em nosso país.

É importante conhecer as diferentes manobras que um piloto pode utilizar como suas ferramentas de trabalho. No entanto, toda ferramenta possui a sua utilização adequada. Soft-Field Takeoffs e Decolagens Curtas devem ser utilizadas quando as circunstâncias exigirem, porém, jamais devem ser combinadas por puro exibicionismo ou por meras doses de adrenalina. Lembre-se de que nem mesmo os pilotos americanos costumam arriscar suas vidas dessa forma.

Luiz Cláudio Ribeirinho
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Luiz Cláudio Ribeirinho

Piloto Privado Teórico, host e editor do CP Cast, revisor, e vocalista da banda Rock Wheels.
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  • Enderson Rafael

    Sem contar o risco associado às cargas sobre a estrutura do avião na transição do voo raso nivelado para a Vx. Na soft field, ela é pequena (e ainda assim considerável), mas quando a manobra é feita por exibicionismo, a chance de ultrapassar os limites da aeronave são maiores, ainda mais ao se tratar de aviões antigos.

  • Renan Becker

    Não da pra negar que é bonito de ver