Quando a imprudência torna-se uma situação catastrófica

posted in: Artigos | 5

Nos últimos meses ficamos cientes de alguns acidentes aeronáuticos que ganharam a mídia, como o LAMIA, Aerosucre e o acidente envolvendo o ex-ministro do STF Teori Zavascki. Em temporadas como essas, logo surgem os questionamentos dos motivos para tais acontecimentos. Falha humana? Falha mecânica? Ou até mesmo terrorismo.

Algumas pessoas que estão fazendo o curso de Piloto Privado me relataram que ficaram muito consternadas com esses acidentes, e por isso, hoje vamos falar um pouco sobre os principais fatores que influenciam as ocorrências aeronáuticas: falha de julgamento, deficiente planejamento, e deficiente supervisão.

O objetivo deste artigo não é analisar os acidentes mencionados acima, mas sim apontar, com base em estudos do CENIPA, órgão de investigação e prevenção de acidentes aeronáuticos, os fatores já mencionados.


Decidindo perante situações adversas

Na aviação geral, a qual inclui instrução, aviação executiva/particular, agrícola e paraquedismo, as decisões sempre são de responsabilidade do piloto em comando, mais popularmente conhecido como o Comandante daquele voo e aeronave. Cabe a ele decidir se vai prosseguir ou não com o voo em condições meteorológicas adversas, estando ciente de que na rota ou nos aeródromos envolvidos, a situação está ou não se deteriorando. Ir para outro aeroporto com uma aproximação por instrumentos (no caso de voo IFR) também deve estar em seu leque de opções.

Muitos pilotos decidem fazer um voo em condições adversas, seja de manutenção, pouco combustível ou meteorologia, por já haver operado daquele modo sem maiores consequências. É neste ponto que mora o perigo: a imprudência de crer que nada vai lhe ocorrer, por esses perigos já estarem banalizados em sua mente. É partindo desse princípio que surge um dos fatores contribuintes para boa parte dos acidentes aeronáuticos, a falha de julgamento.

Hoje temos os recursos da internet para nos informarmos em relação à meteorologia, incluindo diversos sites que oferecem imagens de satélite, radar meteorológico, METAR e TAF. Aliado a isso, a maioria das aeronaves hoje possuem um stormscope, através do qual é possível localizar nuvens de tempestade, como as CB’s, com grande precisão e conhecer as reais situações da rota e aeródromos.

Portanto, não faltam meios para basear suas decisões.


Economia & Pressão

Outro fator importante que ainda é negligenciado, é o respeito ao combustível. Não é difícil encontrar pilotos que pousam no aeródromo de destino com somente 20 minutos de autonomia. Essa é uma aposta extremamente arriscada, pois se o aeródromo de destino estiver com a pista impraticável, provavelmente a aeronave com pouco combustível virá a ter uma pane seca, acabando por fazer um pouso de emergência próximo do destino ou alternativa. Apesar da semelhança com acidentes recentes, é importante reforçar que essa descrição infelizmente é comum, sendo a aplicável a diversos casos ao longo dos anos.

Da mesma maneira, com relação a um problema mecânico, também é do piloto em comando a decisão de fazer um voo com essa imperfeição técnica. Aliado a isso está a possibilidade da pressão externa, seja por conta do dono do avião, ou do famoso “Temos que chegar” ou “Vou fazer esse voo assim mesmo”. É indispensável que o Comandante saiba tomar a decisão correta, mesmo que a situação e demais ocupantes da aeronave tentem influenciar ele para o lado oposto. Melhor chegar atrasado mas em segurança, do que arriscar decolar sem saber como acabará a viagem.


O que você decide, Comandante?

Tenho em mente que o piloto deve zelar pela segurança de todos, fazendo suas escolhas principalmente com base na vida dos ocupantes da aeronave. Sempre estará sob o Comandante a decisão de decolar ou não perante certas condições de meteorologia, pressão e autonomia. Há aqueles que conseguem realizar voos mesmo em cenários contraditórios, porém, são justamente casos como esses que um dia podem colocar o piloto em um relatório do CENIPA. A imprudência de acreditar estar imune a acidentes, é o maior erro que um aviador pode cometer.

Dentro da aeronave, o poder de decisão está sempre nas mãos do Comandante. Escolha com sabedoria.

Rodrigo Satoshi
Redes

Rodrigo Satoshi

Instrutor de Voo de Avião e professor de curso teórico para Pilotos Privados e Pilotos Comerciais.
Rodrigo Satoshi
Redes
  • Márcio Lira

    Na minha opinião, o Aluno PP já deveria ter acesso e vontade de ler Relatórios Finais (CENIPA) desde o início do curso ou até mesmo dos estudos “solo”.
    Lanço até a ideia aqui no CP: colocar, se possível, o link do site de pesquisa de relatórios do CENIPA.
    Valeu, Satoshi!

    • Rian Guimarães

      Acesso tem, o que falta é vontade!

      • Márcio Lira

        Não queria falar isso, Rian, rsrs. Mas concordo totalmente contigo.
        Acho incrível a facilidade de comunicação e de aparatos pra pesquisa hj. E não são bem aproveitados, infelizmente.

    • Rodrigo Satoshi

      Segue os endereços para consulta dos relatórios finais:
      http://www.cenipa.aer.mil.br/cenipa/paginas/relatorios/relatorios-finais

      • Márcio Lira

        Boa, Satoshi!